

Ecologia clínica dos regimes intensivos
Manifesto:
Não há falta. Há diferença. Não há silêncio a ser preenchido. Há um outro modo de expressão. Não há sujeito ausente. Há uma vida que não passa pelo sujeito. Durante demasiado tempo, a clínica tomou a linguagem como medida do humano. Falou-se em déficit, em atraso, em falha, em impossibilidade de simbolização. Fez-se do autismo um problema da linguagem — e, com isso, reduziu-se a vida ao que pode ser dito. Mas há vidas que não se dizem. E nem por isso deixam de existir. Há gestos que não significam. E nem por isso deixam de expressar. Há presenças que não se inscrevem no discurso. E nem por isso deixam de compor um mundo. É preciso romper. Romper com a ideia de que compreender é interpretar. Romper com a exigência de que toda expressão deva tornar-se linguagem. Romper com a clínica como prática de correção. Não se trata de fazer falar. Nunca se tratou disso. Trata-se de aprender a ver. A acompanhar. A sustentar. Chamamos de ecologia clínica dos regimes intensivos o deslocamento radical da clínica: do sujeito para o campo, da linguagem para o sensível, da interpretação para a presença. Não há indivíduo isolado — há agenciamentos. Não há comportamento a corrigir — há relações a compor. Não há interioridade a decifrar — há trajetos a cartografar. A clínica não começa quando alguém fala. A clínica começa quando alguém passa a existir com o outro. Presença próxima, não intervenção. Cartografia, não diagnóstico. Composição, não adaptação. É no traço, no gesto, no desvio, na repetição, que uma vida insiste. É ali que ela deve ser encontrada. Recusamos a violência suave da normalização. Recusamos a funcionalidade como critério de existência. Recusamos a linguagem como tribunal do humano. Não há um modelo ao qual se deva corresponder. Cada modo de vida é completo em sua própria forma de existir. O autismo não é um erro da linguagem. É a evidência de que a linguagem não é tudo. Ele não indica um déficit. Indica um limite — o limite de um mundo que se quis universal. E, nesse limite, abre-se outra possibilidade de vida. Uma clínica dos regimes intensivos não interpreta o silêncio. Ela escuta o que não é palavra. Não traduz o gesto. Ela acompanha o movimento. Não organiza o mundo para o sujeito. Ela compõe mundos onde diferentes modos de existir possam coexistir. Não se trata de incluir. Incluir é ainda medir pelo mesmo padrão. Trata-se de coexistir sem reduzir. Há uma vida que escapa. Uma vida sem nome, sem forma fixa, sem sujeito. Uma vida que se faz em linhas, em ritmos, em encontros. É essa vida que a clínica deve aprender a sustentar. Não queremos adaptar corpos ao mundo. Queremos abrir o mundo à multiplicidade dos corpos. Não se trata de curar. Trata-se de coexistir. A ecologia clínica dos regimes intensivos é um gesto ético. E talvez seja isso, no fim, o mais difícil de sustentar: reconhecer que há vidas que não precisam ser transformadas para serem vividas. E que a tarefa da clínica não é fazê-las caber — mas fazer com que possam existir.

